
A série All Her Fault parte de um enredo aparentemente simples, o desaparecimento de uma criança, para revelar uma lógica profundamente enraizada nas relações sociais e institucionais: a responsabilização quase automática da mulher. Desde os primeiros episódios, a protagonista é colocada no centro da suspeita não por provas concretas ou evidências objetivas, mas por expectativas sociais historicamente construídas sobre maternidade, cuidado, vigilância e comportamento feminino. A narrativa evidencia como o olhar social tende a presumir a culpa da mulher, especialmente quando ela ocupa o papel de mãe, transformando-a rapidamente de vítima em suspeita. Esse ponto de partida dialoga de forma direta e inquietante com a realidade jurídica brasileira no que diz respeito aos direitos das mulheres.
No Brasil, embora a Constituição Federal assegure igualdade formal entre homens e mulheres, a prática jurídica cotidiana ainda é atravessada por estereótipos de gênero que influenciam investigações, decisões judiciais e a atuação institucional. Assim como na série, mulheres frequentemente precisam “provar” sua inocência, sua boa-fé ou sua conformidade a papéis socialmente impostos. O sistema não parte da neutralidade, mas de expectativas morais que recaem de maneira desproporcional sobre o feminino. No âmbito do Direito Penal, isso se manifesta de forma especialmente visível na investigação e no julgamento de casos envolvendo mulheres, sobretudo mães, mulheres pobres, negras ou aquelas que fogem ao modelo tradicional de família e comportamento. A pergunta implícita, muitas vezes, não é apenas “o que aconteceu?”, mas “o que ela fez de errado?”.
All Her Fault evidencia como a narrativa pública pode ser construída contra a mulher antes mesmo da apuração rigorosa dos fatos, algo que encontra paralelo direto no fenômeno da revitimização presente no sistema de justiça brasileiro. Mulheres vítimas de violência doméstica ou sexual, por exemplo, ainda enfrentam questionamentos reiterados sobre sua conduta, suas roupas, seus relacionamentos e suas escolhas pessoais, apesar de importantes avanços legislativos como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio. A culpabilização da vítima persiste como prática simbólica e institucional, revelando a distância existente entre a norma jurídica formal e a cultura que orienta sua aplicação concreta.
Outro ponto relevante diz respeito à atuação do Estado. Na série, a investigação é marcada por julgamentos morais, falhas de escuta, decisões precipitadas e ausência de empatia institucional. No Brasil, o Direito das Mulheres enfrenta desafios semelhantes, como a insuficiente capacitação de agentes públicos com perspectiva de gênero, decisões judiciais fundamentadas em preconceitos e obstáculos ao acesso efetivo à justiça. Esses entraves se intensificam quando se trata de mulheres negras, pobres e periféricas, que enfrentam múltiplas camadas de vulnerabilidade. O Direito, que deveria funcionar como instrumento de proteção e garantia de direitos, muitas vezes reproduz as mesmas violências simbólicas que afirma combater.
Por fim, a série provoca uma reflexão essencial e incômoda: até que ponto o sistema está preparado para enxergar a mulher como sujeito pleno de direitos, e não como suspeita natural? O paralelo com o ordenamento jurídico brasileiro revela que a luta pelos direitos das mulheres não se limita à criação de leis ou políticas públicas, mas exige uma transformação estrutural na interpretação, aplicação e prática do Direito. All Her Fault não é apenas um thriller psicológico; é um espelho desconfortável de uma justiça que, muitas vezes, ainda pergunta primeiro “de quem é a culpa?” antes de perguntar, de forma honesta e responsável, “onde está a verdade?”.
Flávio Vaz Calderaro – Advogado. Doutor e Mestre em Direito. Professor Universitário. Escritor.