{"id":13121,"date":"2025-08-21T10:05:22","date_gmt":"2025-08-21T13:05:22","guid":{"rendered":"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/?p=13121"},"modified":"2025-08-21T10:05:22","modified_gmt":"2025-08-21T13:05:22","slug":"entre-a-invisibilidade-e-a-luta-por-direitos-o-contexto-historico-da-violencia-degenero-no-brasil-ate-a-lei-maria-da-penha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/?p=13121","title":{"rendered":"Entre a Invisibilidade e a Luta por Direitos: o Contexto Hist\u00f3rico da Viol\u00eancia deG\u00eanero no Brasil at\u00e9 a Lei Maria da Penha"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"682\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Simone-Pardini-682x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13122\" srcset=\"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Simone-Pardini-682x1024.jpeg 682w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Simone-Pardini-200x300.jpeg 200w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Simone-Pardini-768x1152.jpeg 768w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Simone-Pardini-720x1080.jpeg 720w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Simone-Pardini.jpeg 853w\" sizes=\"(max-width: 682px) 100vw, 682px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Historicamente, a mulher foi relegada a um papel de subalternidade jur\u00eddica e social, submissa \u00e0 autoridade masculina no \u00e2mbito familiar e exclu\u00edda das esferas de decis\u00e3o p\u00fablica. A Lei Maria da Penha (2006) representou um avan\u00e7o no combate \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero. Contudo, sua constru\u00e7\u00e3o foi \u00e1rdua e marcada por d\u00e9cadas de invisibiliza\u00e7\u00e3o institucional da viol\u00eancia dom\u00e9stica e por normas legais que legitimaram a domina\u00e7\u00e3o patriarcal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O C\u00f3digo Civil de 1916 institucionalizava a desigualdade, atribuindo ao marido o poder sobre a mulher casada, onde era considerada relativamente incapaz. Mesmo com o Estatuto da Mulher Casada (1962), que permitiu o trabalho feminino sem autoriza\u00e7\u00e3o do c\u00f4njuge, a subordina\u00e7\u00e3o persistia no plano cultural e social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Lei do Div\u00f3rcio (1977) representou outro avan\u00e7o, ao permitir a dissolu\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo conjugal em um pa\u00eds fortemente influenciado pela moral cat\u00f3lica. No entanto, a mulher divorciada passou a carregar um novo estigma social, vista como \u201clargada&#8221;, mesmo em contextos de viol\u00eancia ou abandono.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 consagrou a igualdade de g\u00eanero, mas sua aplica\u00e7\u00e3o \u00e9 restrita pela perman\u00eancia de desigualdades materiais. A justi\u00e7a ainda reproduz julgamentos baseados em valores morais e n\u00e3o nos direitos fundamentais da mulher.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Altera\u00e7\u00f5es legislativas relevantes antecederam a Lei Maria da Penha: o C\u00f3digo Civil de 2002 afastou a possibilidade de anula\u00e7\u00e3o do casamento por aus\u00eancia de virgindade e o C\u00f3digo Penal, em 2005, eliminou o crit\u00e9rio de &#8216;mulher honesta&#8217; para crimes sexuais. Esses avan\u00e7os representaram um rompimento simb\u00f3lico com um passado em que o valor da mulher era medido por sua conduta sexual ou obedi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo com avan\u00e7os legais, a mulher segue culturalmente desprotegida. Filmes como as pornochanchadas e m\u00fasicas populares naturalizam a viol\u00eancia e refor\u00e7am a inferioriza\u00e7\u00e3o feminina. O imagin\u00e1rio social legitima essa desigualdade simb\u00f3lica e f\u00edsica. Esse cen\u00e1rio evidencia que a viol\u00eancia de g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de direito penal, mas de cultura e representa\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Lei Maria da Penha foi impulsionada por mobiliza\u00e7\u00f5es feministas e pela condena\u00e7\u00e3o do Brasil na OEA, que responsabilizou o Estado brasileiro pela omiss\u00e3o na prote\u00e7\u00e3o \u00e0 farmac\u00eautica Maria da Penha Maia Fernandes, v\u00edtima de duas tentativas de feminic\u00eddio por parte do marido e submetida a um sistema judicial ineficiente por mais de duas d\u00e9cadas. A lei criou medidas protetivas, afastamento do agressor e juizados especializados, rompendo com a hist\u00f3rica omiss\u00e3o estatal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar disso, sua efetividade \u00e9 limitada por falhas estruturais: escassez de delegacias especializadas, aus\u00eancia de abrigos e resist\u00eancia institucional ao enfrentamento da viol\u00eancia de g\u00eanero como quest\u00e3o de direitos humanos. Sem uma rede de prote\u00e7\u00e3o efetiva e acesso \u00e0 justi\u00e7a humanizada, a mulher continua em situa\u00e7\u00e3o de risco, mesmo ap\u00f3s denunciar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A luta por igualdade exige mais que legisla\u00e7\u00e3o. Demanda mudan\u00e7as culturais, pol\u00edticas p\u00fablicas eficazes e responsabiliza\u00e7\u00e3o dos agressores. A desprote\u00e7\u00e3o da mulher \u00e9 estrutural e exige resposta intersetorial e cont\u00ednua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 fundamental destacar que os efeitos da viol\u00eancia de g\u00eanero se agravam quando atravessados por outros marcadores sociais, como classe, ra\u00e7a e territ\u00f3rio. Mulheres negras, perif\u00e9ricas e ind\u00edgenas enfrentam n\u00e3o s\u00f3 a viol\u00eancia dom\u00e9stica, mas tamb\u00e9m a omiss\u00e3o institucional, o racismo estrutural e a exclus\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria da mulher brasileira revela que a desprote\u00e7\u00e3o de g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 um acidente hist\u00f3rico, mas uma constru\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica. Durante s\u00e9culos, o Estado, a Igreja, o Judici\u00e1rio e os meios de comunica\u00e7\u00e3o contribu\u00edram para a reprodu\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is opressores. A conquista da Lei Maria da Penha n\u00e3o encerra essa luta, mas marca o in\u00edcio de um novo ciclo de resist\u00eancia e reivindica\u00e7\u00e3o de direitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alertou Simone de Beauvoir, &#8216;basta uma crise para que os direitos das mulheres sejam questionados&#8217;. No Brasil, onde a cada hora quatro mulheres sofrem agress\u00f5es, \u00e9 imperioso que a luta continue at\u00e9 que a igualdade se concretize em todas as esferas. Somente assim ser\u00e1 poss\u00edvel garantir \u00e0s mulheres uma exist\u00eancia livre de viol\u00eancia, discrimina\u00e7\u00e3o e medo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Simone Mendes de Almeida Pardini<\/strong> &#8211; Advogada, Doutoranda em Educa\u00e7\u00e3o, Mestra em Educa\u00e7\u00e3o Tecnol\u00f3gica, Professora Universit\u00e1ria, Especialista em Direito Processual Civil, Eletr\u00f4nico, Educacional, Fam\u00edlia e Sucess\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Historicamente, a mulher foi relegada a um papel de subalternidade jur\u00eddica e social, submissa \u00e0 autoridade masculina no \u00e2mbito familiar e exclu\u00edda das esferas de decis\u00e3o p\u00fablica. A Lei Maria da Penha (2006) representou um avan\u00e7o no combate \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero. 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