{"id":13920,"date":"2026-02-12T12:01:16","date_gmt":"2026-02-12T12:01:16","guid":{"rendered":"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/?p=13920"},"modified":"2026-02-12T12:49:30","modified_gmt":"2026-02-12T12:49:30","slug":"a-semantica-da-revisional-de-alimentos-e-o-artigo-1-699-do-codigo-civil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/a-semantica-da-revisional-de-alimentos-e-o-artigo-1-699-do-codigo-civil\/","title":{"rendered":"A Sem\u00e2ntica da Revisional de Alimentos e o Artigo 1.699 do C\u00f3digo Civil"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"height:19px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Fernando-Santiago-907x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13921\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<div style=\"height:22px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Direito de Fam\u00edlia, em sua ess\u00eancia mais intr\u00ednseca, \u00e9 din\u00e2mico, multifacetado e refrat\u00e1rio a engessamentos temporais. Dentre seus institutos mais pulsantes e socialmente sens\u00edveis, a presta\u00e7\u00e3o aliment\u00edcia destaca-se por sua natural mutabilidade, fundamentada na cl\u00e1ssica cl\u00e1usula rebus sic stantibus. Isso significa que as decis\u00f5es sobre alimentos s\u00e3o proferidas sob a \u00e9gide do estado atual das coisas, mantendo-se \u00edntegras apenas enquanto persistirem as condi\u00e7\u00f5es f\u00e1ticas de sua g\u00eanese. Contudo, a aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do artigo 1.699 do C\u00f3digo Civil brasileiro tem enfrentado obst\u00e1culos hermen\u00eauticos severos, que desafiam n\u00e3o apenas a l\u00f3gica legislativa, mas a pr\u00f3pria justi\u00e7a social. O cerne desta contenda reside na interpreta\u00e7\u00e3o da conjun\u00e7\u00e3o que define os pressupostos autorizadores para a modifica\u00e7\u00e3o do encargo alimentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Disp\u00f5e o citado artigo: &#8220;Se, fixados os alimentos, sobrevier mudan\u00e7a na situa\u00e7\u00e3o financeira de quem os supre, ou na de quem os recebe, poder\u00e1 o interessado reclamar ao juiz, conforme as circunst\u00e2ncias, exonera\u00e7\u00e3o, redu\u00e7\u00e3o ou majora\u00e7\u00e3o do encargo&#8221;. A reda\u00e7\u00e3o \u00e9 clara, desprovida de ambiguidades. O legislador, de forma t\u00e9cnica e propositada, utilizou-se de uma conjun\u00e7\u00e3o coordenativa disjuntiva \u2014 o voc\u00e1bulo&nbsp;<strong>\u201cou\u201d<\/strong>&nbsp;\u2014 para estabelecer as hip\u00f3teses de cabimento da a\u00e7\u00e3o revisional. Do ponto de vista da l\u00f3gica jur\u00eddica e da sintaxe normativa, isso implica dizer que a altera\u00e7\u00e3o em apenas um dos polos da obriga\u00e7\u00e3o alimentar \u00e9 condi\u00e7\u00e3o suficiente e bastante para provocar a tutela jurisdicional e permitir o reequil\u00edbrio do bin\u00f4mio necessidade-possibilidade, que modernamente a doutrina j\u00e1 reconhece como trin\u00f4mio, incluindo a proporcionalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Infelizmente, observa-se na pr\u00e1xis forense uma tend\u00eancia perigosa e tecnicamente equivocada de exigir uma cumulatividade de fatores que a lei n\u00e3o prev\u00ea. N\u00e3o raramente, operadores do direito e at\u00e9 mesmo decis\u00f5es judiciais em inst\u00e2ncias ordin\u00e1rias condicionam a proced\u00eancia da revis\u00e3o \u00e0 prova da altera\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea da fortuna do alimentante e das necessidades do alimentado. Tal interpreta\u00e7\u00e3o \u2014 que beira a teratologia jur\u00eddica \u2014 transmuda a disjuntiva&nbsp;<strong>\u201cou\u201d<\/strong>&nbsp;na aditiva&nbsp;<strong>&#8220;e&#8221;<\/strong>, impondo ao autor da demanda um \u00f4nus probat\u00f3rio herc\u00faleo e, por vezes, juridicamente imposs\u00edvel (a chamada prova diab\u00f3lica). Ao agir assim, o aplicador do direito fere de morte a finalidade da norma e o princ\u00edpio da proporcionalidade, ignorando que o desequil\u00edbrio pode surgir de uma altera\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica em apenas uma das extremidades da rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Se o alimentante sofre um decr\u00e9scimo em sua capacidade financeira \u2014 seja pelo desemprego, pela fal\u00eancia de um empreendimento ou pelo surgimento de novas despesas essenciais \u2014, o equil\u00edbrio do bin\u00f4mio est\u00e1 rompido, independentemente de as necessidades do alimentado terem permanecido est\u00e1ticas. Da mesma forma, se a necessidade do alimentado se agrava \u2014 como em casos de doen\u00e7as cr\u00f4nicas, defici\u00eancias supervenientes ou o ingresso em etapas educacionais comprovadamente mais onerosas \u2014, a majora\u00e7\u00e3o \u00e9 devida, desde que o provedor suporte o novo encargo, ainda que os rendimentos deste n\u00e3o tenham aumentado. A lei n\u00e3o exige uma conjun\u00e7\u00e3o cumulativa de infort\u00fanios e sucessos; exige apenas a demonstra\u00e7\u00e3o da quebra da base objetiva que amparou a fixa\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;H\u00e1, ainda, outro ponto nevr\u00e1lgico no qual os alimentantes frequentemente incorrem em erro: a confus\u00e3o entre a majora\u00e7\u00e3o decorrente da revis\u00e3o de alimentos e o aumento do valor nominal da pens\u00e3o em raz\u00e3o do reajuste do sal\u00e1rio-m\u00ednimo. \u00c9 fundamental esclarecer que, quando a verba alimentar \u00e9 fixada com base no piso nacional, sua atualiza\u00e7\u00e3o anual n\u00e3o constitui revis\u00e3o de alimentos em sentido estrito. Trata-se de mera manuten\u00e7\u00e3o do poder de compra e preserva\u00e7\u00e3o do valor real da obriga\u00e7\u00e3o frente \u00e0 corros\u00e3o inflacion\u00e1ria, mecanismo este \u00ednsito \u00e0 pr\u00f3pria decis\u00e3o fixadora. A revis\u00e3o, por outro lado, pressup\u00f5e a demonstra\u00e7\u00e3o cabal de que as circunst\u00e2ncias f\u00e1ticas \u2014 a capacidade de quem paga ou a necessidade de quem recebe \u2014 mudaram qualitativamente e de forma substancial desde a \u00faltima decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Portanto, \u00e9 imperativo que a advocacia permane\u00e7a vigilante, t\u00e9cnica e combativa quanto \u00e0 correta exegese gramatical e teleol\u00f3gica do Direito Civil. A justi\u00e7a na presta\u00e7\u00e3o de alimentos n\u00e3o se alcan\u00e7a atrav\u00e9s de interpreta\u00e7\u00f5es restritivas que ignoram a literalidade e o esp\u00edrito da norma, mas sim atrav\u00e9s da an\u00e1lise percuciente da realidade factual das partes. O&nbsp;<strong>\u201cou\u201d<\/strong>&nbsp;do artigo 1.699 \u00e9 a salvaguarda de que o equil\u00edbrio e a dignidade da pessoa humana ser\u00e3o preservados, bastando que a balan\u00e7a da vida se incline para um dos lados para que o Poder Judici\u00e1rio possa, e deva, intervir de forma justa, adequada e tempestiva, garantindo a subsist\u00eancia de quem recebe sem sufocar injustamente quem paga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Fernando Santiago da Silva<\/strong>&nbsp;\u2013 Advogado. P\u00f3s-graduando em Processo Civil. Conselheiro Subseccional e Vice-Presidente da Comiss\u00e3o de Esportes da 48\u00aa Subse\u00e7\u00e3o da OAB\/MG.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Direito de Fam\u00edlia, em sua ess\u00eancia mais intr\u00ednseca, \u00e9 din\u00e2mico, multifacetado e refrat\u00e1rio a engessamentos temporais. 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