{"id":13967,"date":"2026-02-26T11:54:26","date_gmt":"2026-02-26T11:54:26","guid":{"rendered":"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/?p=13967"},"modified":"2026-02-26T11:54:26","modified_gmt":"2026-02-26T11:54:26","slug":"all-her-fault-e-o-julgamento-das-mulheres-pelo-sistema-de-justica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/all-her-fault-e-o-julgamento-das-mulheres-pelo-sistema-de-justica\/","title":{"rendered":"ALL HER FAULT E O JULGAMENTO DAS MULHERES PELO SISTEMA DE JUSTI\u00c7A"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"height:21px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"682\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Flavio-Vaz-682x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13968\" srcset=\"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Flavio-Vaz-682x1024.jpeg 682w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Flavio-Vaz-200x300.jpeg 200w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Flavio-Vaz-768x1153.jpeg 768w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Flavio-Vaz-1023x1536.jpeg 1023w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Flavio-Vaz-720x1080.jpeg 720w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Flavio-Vaz-600x901.jpeg 600w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Flavio-Vaz.jpeg 1066w\" sizes=\"(max-width: 682px) 100vw, 682px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A s\u00e9rie <em>All Her Fault<\/em> parte de um enredo aparentemente simples, o desaparecimento de uma crian\u00e7a, para revelar uma l\u00f3gica profundamente enraizada nas rela\u00e7\u00f5es sociais e institucionais: a responsabiliza\u00e7\u00e3o quase autom\u00e1tica da mulher. Desde os primeiros epis\u00f3dios, a protagonista \u00e9 colocada no centro da suspeita n\u00e3o por provas concretas ou evid\u00eancias objetivas, mas por expectativas sociais historicamente constru\u00eddas sobre maternidade, cuidado, vigil\u00e2ncia e comportamento feminino. A narrativa evidencia como o olhar social tende a presumir a culpa da mulher, especialmente quando ela ocupa o papel de m\u00e3e, transformando-a rapidamente de v\u00edtima em suspeita. Esse ponto de partida dialoga de forma direta e inquietante com a realidade jur\u00eddica brasileira no que diz respeito aos direitos das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, embora a Constitui\u00e7\u00e3o Federal assegure igualdade formal entre homens e mulheres, a pr\u00e1tica jur\u00eddica cotidiana ainda \u00e9 atravessada por estere\u00f3tipos de g\u00eanero que influenciam investiga\u00e7\u00f5es, decis\u00f5es judiciais e a atua\u00e7\u00e3o institucional. Assim como na s\u00e9rie, mulheres frequentemente precisam \u201cprovar\u201d sua inoc\u00eancia, sua boa-f\u00e9 ou sua conformidade a pap\u00e9is socialmente impostos. O sistema n\u00e3o parte da neutralidade, mas de expectativas morais que recaem de maneira desproporcional sobre o feminino. No \u00e2mbito do Direito Penal, isso se manifesta de forma especialmente vis\u00edvel na investiga\u00e7\u00e3o e no julgamento de casos envolvendo mulheres, sobretudo m\u00e3es, mulheres pobres, negras ou aquelas que fogem ao modelo tradicional de fam\u00edlia e comportamento. A pergunta impl\u00edcita, muitas vezes, n\u00e3o \u00e9 apenas \u201co que aconteceu?\u201d, mas \u201co que ela fez de errado?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>All Her Fault<\/em> evidencia como a narrativa p\u00fablica pode ser constru\u00edda contra a mulher antes mesmo da apura\u00e7\u00e3o rigorosa dos fatos, algo que encontra paralelo direto no fen\u00f4meno da revitimiza\u00e7\u00e3o presente no sistema de justi\u00e7a brasileiro. Mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica ou sexual, por exemplo, ainda enfrentam questionamentos reiterados sobre sua conduta, suas roupas, seus relacionamentos e suas escolhas pessoais, apesar de importantes avan\u00e7os legislativos como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminic\u00eddio. A culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima persiste como pr\u00e1tica simb\u00f3lica e institucional, revelando a dist\u00e2ncia existente entre a norma jur\u00eddica formal e a cultura que orienta sua aplica\u00e7\u00e3o concreta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro ponto relevante diz respeito \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do Estado. Na s\u00e9rie, a investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 marcada por julgamentos morais, falhas de escuta, decis\u00f5es precipitadas e aus\u00eancia de empatia institucional. No Brasil, o Direito das Mulheres enfrenta desafios semelhantes, como a insuficiente capacita\u00e7\u00e3o de agentes p\u00fablicos com perspectiva de g\u00eanero, decis\u00f5es judiciais fundamentadas em preconceitos e obst\u00e1culos ao acesso efetivo \u00e0 justi\u00e7a. Esses entraves se intensificam quando se trata de mulheres negras, pobres e perif\u00e9ricas, que enfrentam m\u00faltiplas camadas de vulnerabilidade. O Direito, que deveria funcionar como instrumento de prote\u00e7\u00e3o e garantia de direitos, muitas vezes reproduz as mesmas viol\u00eancias simb\u00f3licas que afirma combater.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, a s\u00e9rie provoca uma reflex\u00e3o essencial e inc\u00f4moda: at\u00e9 que ponto o sistema est\u00e1 preparado para enxergar a mulher como sujeito pleno de direitos, e n\u00e3o como suspeita natural? O paralelo com o ordenamento jur\u00eddico brasileiro revela que a luta pelos direitos das mulheres n\u00e3o se limita \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de leis ou pol\u00edticas p\u00fablicas, mas exige uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural na interpreta\u00e7\u00e3o, aplica\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica do Direito. <em>All Her Fault<\/em> n\u00e3o \u00e9 apenas um thriller psicol\u00f3gico; \u00e9 um espelho desconfort\u00e1vel de uma justi\u00e7a que, muitas vezes, ainda pergunta primeiro \u201cde quem \u00e9 a culpa?\u201d antes de perguntar, de forma honesta e respons\u00e1vel, \u201conde est\u00e1 a verdade?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Fl\u00e1vio Vaz Calderaro \u2013 <\/strong>Advogado. Doutor e Mestre em Direito. Professor Universit\u00e1rio. Escritor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A s\u00e9rie All Her Fault parte de um enredo aparentemente simples, o desaparecimento de uma crian\u00e7a, para revelar uma l\u00f3gica profundamente enraizada nas rela\u00e7\u00f5es sociais e institucionais: a responsabiliza\u00e7\u00e3o quase autom\u00e1tica da mulher. 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