{"id":14016,"date":"2026-03-12T13:35:45","date_gmt":"2026-03-12T13:35:45","guid":{"rendered":"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/?p=14016"},"modified":"2026-03-12T13:35:45","modified_gmt":"2026-03-12T13:35:45","slug":"a-violencia-psicologica-e-a-subversao-dos-papeis-de-vitima-e-agressor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/a-violencia-psicologica-e-a-subversao-dos-papeis-de-vitima-e-agressor\/","title":{"rendered":"A viol\u00eancia psicol\u00f3gica e a subvers\u00e3o dos pap\u00e9is de v\u00edtima e agressor"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Daniela-Mattar-683x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14017\" srcset=\"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Daniela-Mattar-683x1024.jpg 683w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Daniela-Mattar-200x300.jpg 200w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Daniela-Mattar-768x1152.jpg 768w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Daniela-Mattar-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Daniela-Mattar-1365x2048.jpg 1365w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Daniela-Mattar-720x1080.jpg 720w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Daniela-Mattar-600x900.jpg 600w, https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Daniela-Mattar-scaled.jpg 1707w\" sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A viol\u00eancia psicol\u00f3gica constitui uma das formas mais silenciosas e persistentes de viola\u00e7\u00e3o \u00e0 dignidade da pessoa humana, especialmente quando direcionada \u00e0s mulheres em rela\u00e7\u00f5es marcadas por profundas assimetrias de poder. Embora reconhecida pelo ordenamento jur\u00eddico brasileiro, sua identifica\u00e7\u00e3o e enfrentamento ainda encontram entraves culturais, institucionais e probat\u00f3rios que favorecem o silenciamento e a revitimiza\u00e7\u00e3o. A an\u00e1lise do filme&nbsp;<em>A Empregada <\/em>revela-se pertinente como reflex\u00e3o jur\u00eddica acerca das limita\u00e7\u00f5es do sistema de justi\u00e7a na prote\u00e7\u00e3o efetiva das v\u00edtimas e sobre a consequente subvers\u00e3o simb\u00f3lica dos pap\u00e9is de v\u00edtima e agressor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A narrativa evidencia que a viol\u00eancia de g\u00eanero n\u00e3o se manifesta apenas por agress\u00f5es f\u00edsicas, mas tamb\u00e9m por manipula\u00e7\u00e3o emocional, controle, humilha\u00e7\u00e3o e isolamento, pr\u00e1ticas reiteradas capazes de comprometer a autonomia, a autoestima e a percep\u00e7\u00e3o de realidade da v\u00edtima. No contexto jur\u00eddico brasileiro, tais condutas se enquadram no conceito de viol\u00eancia psicol\u00f3gica previsto no art. 7\u00ba, II, da Lei n\u00ba 11.340\/2006, que reconhece como viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar qualquer a\u00e7\u00e3o que cause dano emocional, diminui\u00e7\u00e3o da autoestima ou que vise controlar comportamentos e decis\u00f5es. Apesar desse reconhecimento normativo, a efetiva\u00e7\u00e3o da tutela jur\u00eddica ainda enfrenta dificuldades relevantes, sobretudo em raz\u00e3o da aus\u00eancia de vest\u00edgios materiais e da persist\u00eancia de concep\u00e7\u00f5es culturais que relativizam o sofrimento ps\u00edquico feminino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra evidencia o descr\u00e9dito sistem\u00e1tico da palavra da v\u00edtima como forma de viol\u00eancia institucional, refor\u00e7ando a sensa\u00e7\u00e3o de desamparo e contribuindo para a perpetua\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es abusivas. No campo jur\u00eddico, imp\u00f5e-se reflex\u00e3o sobre o valor probat\u00f3rio da palavra da v\u00edtima em crimes de viol\u00eancia de g\u00eanero, especialmente na viol\u00eancia psicol\u00f3gica, cuja comprova\u00e7\u00e3o exige an\u00e1lise contextualizada, sens\u00edvel \u00e0s din\u00e2micas relacionais e atenta \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o das condutas. A jurisprud\u00eancia brasileira j\u00e1 reconhece a relev\u00e2ncia desse testemunho quando coerente com o conjunto probat\u00f3rio, mas a pr\u00e1tica forense ainda revela resist\u00eancia em sua plena incorpora\u00e7\u00e3o, o que dificulta a responsabiliza\u00e7\u00e3o dos agressores e perpetua a invisibilidade dessa forma de viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A narrativa tamb\u00e9m problematiza a seletividade do sistema penal ao demonstrar que o agressor socialmente bem-posicionado tende a ser protegido por capital simb\u00f3lico e econ\u00f4mico. Tal constata\u00e7\u00e3o dialoga com a criminologia cr\u00edtica ao evidenciar que o sistema penal n\u00e3o opera de forma neutra, reproduzindo desigualdades estruturais. A criminologia feminista refor\u00e7a que a viol\u00eancia contra a mulher est\u00e1 inserida em padr\u00f5es hist\u00f3ricos de domina\u00e7\u00e3o e controle que atravessam tanto o espa\u00e7o privado quanto as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, influenciando a forma como as den\u00fancias s\u00e3o recebidas e processadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob a \u00f3tica constitucional, a persist\u00eancia da viol\u00eancia psicol\u00f3gica e a insufici\u00eancia das respostas estatais tensionam diretamente o princ\u00edpio da dignidade da pessoa humana. A integridade ps\u00edquica constitui dimens\u00e3o essencial dessa dignidade e sua viola\u00e7\u00e3o reiterada compromete a promessa constitucional de prote\u00e7\u00e3o integral. A igualdade material tamb\u00e9m se fragiliza quando o sistema de justi\u00e7a falha em reconhecer as especificidades da viol\u00eancia de g\u00eanero, perpetuando um cen\u00e1rio de descr\u00e9dito, silenciamento e desprote\u00e7\u00e3o institucional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A subvers\u00e3o dos pap\u00e9is de v\u00edtima e agressor, evidenciada na narrativa, surge como consequ\u00eancia simb\u00f3lica da omiss\u00e3o estatal e do esgotamento das vias formais de prote\u00e7\u00e3o. Ainda que juridicamente n\u00e3o se legitime a justi\u00e7a privada, o fen\u00f4meno revela a urg\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas eficazes de preven\u00e7\u00e3o, acolhimento e responsabiliza\u00e7\u00e3o. O enfrentamento da viol\u00eancia psicol\u00f3gica exige atua\u00e7\u00e3o estatal integrada, que ultrapasse a l\u00f3gica meramente repressiva e incorpore estrat\u00e9gias educativas, assistenciais e institucionais capazes de romper o ciclo de silenciamento e revitimiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A exist\u00eancia de normas protetivas, por si s\u00f3, n\u00e3o assegura efetividade. \u00c9 indispens\u00e1vel interpreta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica comprometida com a perspectiva de g\u00eanero, com a escuta qualificada e com a realidade vivenciada pelas v\u00edtimas. O di\u00e1logo entre Direito e produ\u00e7\u00f5es culturais amplia a compreens\u00e3o das formas contempor\u00e2neas de viol\u00eancia e convida operadores do Direito a repensarem pr\u00e1ticas, discursos e prioridades institucionais. Reconhecer a gravidade da viol\u00eancia psicol\u00f3gica e assegurar resposta jur\u00eddica eficaz constitui passo essencial para a consolida\u00e7\u00e3o de uma ordem jur\u00eddica comprometida com a dignidade humana, com a igualdade material e com a justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Daniela Mattar \u2013 <\/strong>Advogada. Doutora e Mestra em Direito. Professora Universit\u00e1ria. Autora de obras jur\u00eddicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A viol\u00eancia psicol\u00f3gica constitui uma das formas mais silenciosas e persistentes de viola\u00e7\u00e3o \u00e0 dignidade da pessoa humana, especialmente quando direcionada \u00e0s mulheres em rela\u00e7\u00f5es marcadas por profundas assimetrias de poder. 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