{"id":14312,"date":"2026-04-29T10:53:35","date_gmt":"2026-04-29T13:53:35","guid":{"rendered":"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/?p=14312"},"modified":"2026-04-29T10:53:35","modified_gmt":"2026-04-29T13:53:35","slug":"reconhecimento-pessoal-e-o-fenomeno-das-falsas-memorias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/reconhecimento-pessoal-e-o-fenomeno-das-falsas-memorias\/","title":{"rendered":"Reconhecimento pessoal e o fen\u00f4meno das falsas mem\u00f3rias"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/oabdivinopolis.org.br\/oab48\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Luisa-Damaso.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14314\"\/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:19px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As falsas mem\u00f3rias podem ser definidas como lembran\u00e7as de eventos que n\u00e3o ocorreram, de situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o presenciadas, de lugares jamais vistos ou, ainda, como recorda\u00e7\u00f5es distorcidas de um fato real (ROEDIGER; McDERMOTT, 2000; STEIN; PERGHER, 2001). Elas podem surgir a partir da combina\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias verdadeiras com sugest\u00f5es externas, processo no qual o indiv\u00edduo se torna suscet\u00edvel a confundir ou esquecer a fonte original da informa\u00e7\u00e3o. Essas distor\u00e7\u00f5es frequentemente t\u00eam origem em interrogat\u00f3rios conduzidos de forma sugestiva ou evocativa (LOFTUS, 2005).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse cen\u00e1rio, o reconhecimento pessoal apresenta-se como um dos meios de prova mais controversos no processo penal brasileiro, situando-se em um ponto sens\u00edvel entre a busca pela verdade real e as limita\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 cogni\u00e7\u00e3o humana. A dogm\u00e1tica jur\u00eddica contempor\u00e2nea, apoiada pelos avan\u00e7os da Psicologia do Testemunho, demonstra que a mem\u00f3ria n\u00e3o funciona como um registro est\u00e1tico e fiel dos fatos, mas como um processo reconstrutivo, altamente suscet\u00edvel \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o de elementos externos ao evento originalmente vivenciado (STEIN, 2010).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A gravidade desse fen\u00f4meno \u00e9 evidenciada por dados emp\u00edricos relevantes. Nos Estados Unidos, estudos conduzidos pela organiza\u00e7\u00e3o <em>Innocence Project<\/em> apontam que mais de 75% das condena\u00e7\u00f5es injustas revertidas por meio de exames de DNA tiveram origem em erros de identifica\u00e7\u00e3o realizados por testemunhas oculares, diretamente relacionados ao fen\u00f4meno das falsas mem\u00f3rias (\u00c1VILA, 2014). Nessa mesma linha, Aury Lopes Jr. (2019) destaca a import\u00e2ncia de considerar as expectativas da testemunha, tendo em vista que o ser humano tende a perceber a realidade de acordo com aquilo que espera encontrar. Dessa forma, estere\u00f3tipos sociais relacionados \u00e0 cor, classe e g\u00eanero influenciam significativamente a percep\u00e7\u00e3o dos fatos, contribuindo para a reprodu\u00e7\u00e3o de preconceitos no momento do reconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o procedimento de reconhecimento ignora as formalidades legais, deixa de cumprir sua fun\u00e7\u00e3o de instrumento de busca da verdade e passa a constituir uma fonte relevante de erro judici\u00e1rio. Nessas hip\u00f3teses, torna-se um dos principais fatores de incrimina\u00e7\u00e3o de inocentes, especialmente em raz\u00e3o do chamado \u201cefeito p\u00f3s-evento\u201d, no qual informa\u00e7\u00f5es posteriores influenciam a mem\u00f3ria original da testemunha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 imprescind\u00edvel destacar que o artigo 226 do C\u00f3digo de Processo Penal estabelece um rito espec\u00edfico para o reconhecimento de pessoas, exigindo, entre outros requisitos, a descri\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do suspeito e sua apresenta\u00e7\u00e3o ao lado de indiv\u00edduos com caracter\u00edsticas semelhantes. Durante longo per\u00edodo, tal dispositivo foi relativizado pela jurisprud\u00eancia, sendo interpretado como mera recomenda\u00e7\u00e3o. Contudo, esse entendimento sofreu significativa altera\u00e7\u00e3o com a decis\u00e3o do Superior Tribunal de Justi\u00e7a no HC n\u00ba 598.886\/SC (2020), que firmou a compreens\u00e3o de que a inobserv\u00e2ncia dessas formalidades compromete a validade do ato probat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, a pr\u00e1tica conhecida como \u201c<em>show-up<\/em>\u201d, consistente na apresenta\u00e7\u00e3o de um \u00fanico suspeito \u00e0 v\u00edtima, \u00e9 considerada ilegal e tecnicamente inadequada. Conforme aponta Janaina Matida (2022), tal procedimento viola os par\u00e2metros m\u00ednimos de confiabilidade probat\u00f3ria exigidos em um processo penal democr\u00e1tico. Nesse sentido, o cumprimento rigoroso do artigo 226 n\u00e3o constitui mero formalismo, mas sim uma garantia essencial do devido processo legal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, a admissibilidade do reconhecimento pessoal deve observar crit\u00e9rios rigorosos de corrobora\u00e7\u00e3o. O Supremo Tribunal Federal, ao julgar o RHC 192.732\/SC (2021), reafirmou que esse meio de prova n\u00e3o pode, isoladamente, fundamentar uma condena\u00e7\u00e3o, devendo estar necessariamente amparado por outros elementos independentes. Tal exig\u00eancia visa assegurar que o sistema de justi\u00e7a criminal n\u00e3o se apoie exclusivamente em um mecanismo cognitivo fal\u00edvel e altamente influenci\u00e1vel, como a mem\u00f3ria humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Lu\u00edsa D\u00e2maso Gontijo<\/strong> \u2013 Advogada inscrita na OAB\/MG 242.138. Atua\u00e7\u00e3o na \u00e1rea Criminal. P\u00f3s-graduanda em Advocacia Criminal \u2013 PUC\/MG. Membro da Comiss\u00e3o de Enfrentamento \u00e0 Viol\u00eancia Dom\u00e9stica da 48\u00ba Subse\u00e7\u00e3o da OAB\/MG. Contato: (37) 9 9868-6683. E-mail: <a href=\"mailto:luisagontijoadv@gmail.com\">luisagontijoadv@gmail.com<\/a>. Instagram: @luisadamaso.adv<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As falsas mem\u00f3rias podem ser definidas como lembran\u00e7as de eventos que n\u00e3o ocorreram, de situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o presenciadas, de lugares jamais vistos ou, ainda, como recorda\u00e7\u00f5es distorcidas de um fato real (ROEDIGER; McDERMOTT, 2000; STEIN; PERGHER, 2001). 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